sábado, 12 de junho de 2010

HQ, Liberdade e Digressão


Estou lendo Epiléptico de David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard). O autor conta sua história e a de sua família, especialmente de seu irmão mais velho, Jean-Christophe, que tem epilepsia. A HQ é belíssima, as imagens representam de forma perturbadora a doença. A relação de David com o irmão é relativamente normal até ele perceber como a epilepsia o afasta das outras pessoas, e como Jean-Christophe será para sempre um deslocado, dependente do cuidado dos pais.

Eu tinha uma tia epiléptica e as crises eram bem bizarras, eu lembro de ficar olhando para o rosto dela tentando entender o que acontecia com sua cabeça, porque ela perdia o controle sobre o corpo, pra onde ia sua mente (ela nunca lembrava o que acontecia durante as crises). Eu achava que ela tinha tantas crises porque não era tratada corretamente, eu realmente achava que a doença poderia ser controlada apenas com remédios, mas parece que não é bem assim. A família de David B. vivia bem financeiramente e mesmo com tantos médicos franceses e neurologistas de renome, Jean-Christophe se tornou uma pessoa à margem da sociedade, preso para sempre em uma mente atormentada. Em determinada passagem um médico conversa com a mãe e diz:

“Nosso livre-arbítrio é muito limitado, ele representa apenas 1% de nossos atos. Os grandes homens políticos e os artistas conseguem uma porcentagem um pouco maior. Mas, por causa da doença a liberdade de seu filho é inferior à da média. Nós não somos livres, e ele é menos ainda.”

Isso me fez lembrar um dos primeiros sentimentos que eu tive quando descobri que estava com câncer. Eu estava presa em uma armadilha criada pelo meu próprio corpo e não havia como escapar, eu não tinha escolha, ou fazia o tratamento ou morria, literalmente. Esse sentimento durou alguns meses e precisei de toda a fuga que os filmes e livros poderiam me oferecer para não me desesperar.

Eu não era e nem sou livre hoje, o fantasma da doença me ronda o tempo todo, uma simples dor no pescoço pode ser outro linfonodo inchado, minha vida de cabeça pra baixo, mais sessões de quimioterapia, queda de cabelo, o medo da morte. Reconhecer isso me faz ver como é engraçada a visão que algumas pessoas tem da liberdade. Há quem trabalhe 44 horas por semana em um emprego que odeia, mas se permite dizer que é livre porque no sábado pode sair para beber e ficar na rua até mais tarde. Segunda feira volta a sentar a bunda em frente a um computador, sonhando com o próximo final de semana. Há aqueles que compram apartamento, carro, o caralho em 1 milhão de vezes e se prendem mais ainda num redemoinho de dívidas, frustrações, o horror do desemprego.

Eu quero ser agente da polícia federal pelo dinheiro. Ele talvez me traga uma certa liberdade por me permitir fazer coisas que, sim, apenas com dinheiro se pode fazer. Mas também sei que se odiar estar na PF, estarei presa para sempre porque esse mesmo dinheiro não vai me permitir sair. Estamos num beco sem saída, amigos.

Eu não sou livre. E acho que nem você.

6 comentários:

  1. Ser livre é complicado mesmo, faz parte.
    ehheehhehe

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  2. Porra, Arrafinha... Assim vc me deprime!

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  3. Como diz Jaca, o bagulho é frenético!

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  4. "Apenas quem corre riscos é livre".

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  5. 'bora deixar pra lá a inconsistência do ser e se divertir com a efemeridade do estar.

    ps.: e agora quero ler o epiléptico. são quantos livros?

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  6. Gigi, são dois livros. Já terminei de ler o segundo. Recomendo!

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